O empresário Maurício Camisotti, apontado como um dos principais beneficiários do esquema da fraude no INSS, firmou um acordo de delação premiada com a Polícia Federal (PF). No documento, ele admite a existência de irregularidades e se compromete a apresentar provas e identificar outros envolvidos.
Camisotti foi preso em setembro de 2025, durante uma das fases da operação conduzida pela PF que investigou o esquema de descontos irregulares no INSS. Ele foi detido no mesmo dia do lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, apontado como intermediário entre entidades e servidores da autarquia. Até o momento, o empresário segue preso preventivamente, embora a defesa tenha solicitado a conversão da detenção em prisão domiciliar no âmbito do acordo de delação.
Camisotti é descrito pelos investigadores como peça central do chamado “núcleo financeiro” da organização criminosa. A delação, a primeira no âmbito da investigação, foi encaminhada ao Supremo Tribunal Federal (STF) e aguarda homologação do ministro André Mendonça. O acordo também deverá passar pela análise da Procuradoria-Geral da República (PGR).
As investigações apontam que o esquema consistia na aplicação de descontos mensais em benefícios de aposentados e pensionistas sem autorização. Entidades formalmente constituídas firmavam acordos com o INSS para oferecer supostos serviços aos segurados, mas, na prática, funcionavam como instrumentos para a cobrança indevida.
Entre as organizações sob suspeita está a Ambec (Associação de Aposentados Mutualista para Benefícios Coletivos), que recebeu cerca de R$ 400 milhões em repasses do INSS entre 2023 e 2025. Parte desses valores teria sido direcionada a empresas ligadas a Camisotti, levantando suspeitas de lavagem de dinheiro.
Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) também identificaram movimentações atípicas. O empresário realizou saques milionários em espécie — incluindo retiradas que somam mais de R$ 7 milhões — o que reforçou indícios de tentativa de ocultação de recursos.
De acordo com a PF, Camisotti atuava como beneficiário direto das fraudes e teria controle indireto sobre entidades utilizadas no esquema. Investigações indicam que associações envolvidas eram geridas por pessoas ligadas ao empresário, incluindo funcionários e familiares.
O caso também tem desdobramentos políticos. Camisotti e outros investigados, como o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, são citados em apurações que apontam conexões com figuras influentes durante governos anteriores, incluindo o período de Michel Temer e Jair Bolsonaro.
As associações suspeitas ganharam força justamente nesse intervalo, ampliando número de filiados e receitas. Paralelamente, decisões administrativas no INSS facilitaram a celebração de parcerias com essas entidades, permitindo a inclusão dos descontos diretamente na folha de pagamento dos beneficiários.
A delação de Camisotti pode abrir caminho para novos avanços no caso. Outros investigados também negociam acordos com as autoridades, incluindo um procurador federal e um ex-diretor de benefícios do INSS responsável por autorizar parcerias com associações.
Para validar o acordo, o empresário precisou confessar crimes e apresentar elementos de prova, como documentos e registros de comunicação. Em troca, poderá obter benefícios legais, como eventual conversão da prisão preventiva em domiciliar.
O escândalo, revelado a partir de operações conjuntas da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União, expôs um esquema que teria prejudicado milhares de aposentados em todo o país. A expectativa é que a colaboração ajude a identificar novos responsáveis e esclarecer a extensão das irregularidades.
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