Livro de ocorrências de aeroporto registrou liberação de bagagens fora do raio-x em voo com dono de bet, Motta e Ciro Nogueira

Anotação informa que malas e bolsas de mão foram levadas por fora mesmo com 'pórtico apitando'

Por Sarah Teófilo | O Globo

29/04/2026

Livro de ocorrências de aeroporto registrou liberação de bagagens fora do raio-x em voo com dono de bet, Motta e Ciro Nogueira
Livro de ocorrências do Aeroporto Catarina registrou bagagens fora do raio-x — Foto: Reprodução
Um registro no livro de ocorrências do Aeroporto Catarina, em São Roque (SP), registrou o episódio em que bagagens foram liberadas sem passar por inspeção de raio-x no desembarque de um voo internacional que tinha entre os passageiros o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o senador Ciro Nogueira (PP-PI), em abril de 2025. O jatinho é de um empresário do setor de apostas on-line e retornava da ilha caribenha de São Martinho.
 
“(…) Liberou todas as malas e bolsas de mão com todos os eletrônicos, garrafas dentro das malas (…) e autorizou a passar bagagem do tripulante fora do raio-x mesmo o pórtico apitando. Sem mais”, diz a anotação.
 
Além do presidente da Câmara e do senador, no voo também estavam os deputados Isnaldo Bulhões (AL), líder do MDB na Câmara, e Dr. Luizinho (RJ), líder do PP.
 
Procurado, Motta disse que “cumpriu todos os protocolos e determinações estabelecidas na legislação aduaneira” ao desembarcar. “O deputado aguardará a manifestação da Procuradoria-Geral da República”, diz, em nota enviada por sua assessoria. Os demais parlamentares citados não responderam.
 
O caso é alvo de investigação da Polícia Federal, que apura a suposta entrada irregular de bagagens no terminal executivo. Segundo o relatório da corporação, o auditor fiscal teria permitido que um tripulante da aeronave passasse pelo controle com cinco volumes “sem que qualquer deles passasse pela fiscalização”.
 
De acordo com o documento, o auditor “teria praticado possível infração administrativa e/ou penal” ao permitir a liberação das bagagens sem inspeção.
 
Imagens de câmeras de segurança do aeroporto reforçam a suspeita. Segundo a PF, os registros mostram que um tripulante da aeronave passou por fora do aparelho de raio-x com malas, sacolas e uma caixa transportadas em um carrinho. Os investigadores afirmam, no entanto, que “não é possível afirmar categoricamente a quem os volumes pertencem ou seu conteúdo”.
 
O inquérito foi aberto em janeiro para apurar possíveis crimes de prevaricação e facilitação de contrabando ou descaminho por parte do auditor fiscal. Diante da presença de parlamentares com prerrogativa de foro entre os passageiros, o caso foi remetido ao Supremo Tribunal Federal (STF) em 13 de abril, a pedido do Ministério Público Federal.
 
Em manifestação no processo, o MPF afirmou que, com os elementos até o momento colhidos, “não é possível descartar a possibilidade de envolvimento de um ou mais parlamentares nos delitos sob apuração”.
 
O voo foi realizado em um jatinho de prefixo PP-OIG, que tem como proprietário Fernando Oliveira Lima, conhecido como Fernandin OIG, dono da One Internet Group. Ele chegou a ser alvo da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Bets, criada em 2024 pelo Senado, e teve seu indiciamento pedido pela relatora, senadora Soraya Thronicke (PSB-MS), por exploração ilegal de jogos de azar. O relatório final da CPI, contudo, foi rejeitado pela maioria do coelgiado. Procurado, Lima não comentou.
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