Flávio Bolsonaro e Adriano da Nóbrega: O ‘parça’ do matador de aluguel quer ser presidente

Entenda em profundidade a relação do senador que hoje almeja o Palácio do Planalto com seu amigo íntimo, um dos milicianos e assassinos mais violentos do Brasil, que executava por encomenda

Por Henrique Rodrigues | Revista Fórum

07/04/2026 15:45

Flávio Bolsonaro e Adriano da Nóbrega: O ‘parça’ do matador de aluguel quer ser presidente
O miliciano matador Adriano da Nóbrega e o senador Flávio Bolsonaro - Fotos: Reprodução e Wilson Dias/Agência Brasil

O submundo do Rio de Janeiro é um labirinto onde a política institucional e o crime organizado frequentemente dividem o mesmo café, a mesma viatura e, em casos mais sombrios, a mesma folha de pagamento. No centro desse labirinto, surge uma conexão que desafia a lógica da “moral e dos bons costumes” pregada pela família Bolsonaro: a amizade de décadas entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega. Enquanto Adriano ascendia como o “capo dos capos” no chamado Escritório do Crime, uma multinacional da pistolagem que cobrava cifras milionárias para fuzilar rostos à luz do dia, Flávio o tratava como herói. A face de “pessoa de bem” do senador, que agora pavimenta seu caminho rumo a uma pretensa candidatura presidencial, esconde uma biografia entrelaçada com a maior escória criminosa que o país já viu.

O “bate-pronto” que virou segurança: Como tudo começou

A história entre os dois não teve início em gabinetes acarpetados do universo político, mas sim nas ruas da Tijuca, em 2002. Foi após o roubo de um carro de Flávio Bolsonaro que Adriano da Nóbrega entrou em cena de forma definitiva. O então oficial da PM não apenas recuperou o veículo, como passou a atuar como uma espécie de segurança informal do jovem que iniciava sua carreira política na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Os detalhes dessa amizade colorida são esmiuçados no livro-reportagem “Decaído“, do jornalista Sérgio Ramalho, lançado em 2023. Dali em diante, a relação floresceu sob a sombra da pólvora. Adriano, um homem de porte atlético e exímio atirador, tornou-se inclusive instrutor de tiro de Flávio, conforme o próprio senador admitiu em depoimento ao Ministério Público anos atrás.

O que se desenhava naquela relação era uma simbiose perigosa. Na mesma época em que estreitava laços com o clã, o militar que se tornaria o sanguinário e temido “Capitão Adriano” já mergulhava em águas turvas, envolvendo-se no sequestro do filho de um dos chefes do Comando Vermelho, Isaías do Borel. Era o prelúdio de uma carreira que misturaria o distintivo com o capuz de executor, sempre sob o olhar complacente, quando não entusiasta, de seus padrinhos políticos.

Medalha no cárcere: Cinismo elevado à categoria de honraria

Se a proximidade já era um escândalo ético, o biênio 2004/2005 elevou o cinismo à categoria de método político. Adriano estava preso no Batalhão Especial Prisional (BEP), acusado de matar Leandro dos Santos Silva, um guardador de carros que tivera a audácia de denunciar tortura e extorsão praticadas por policiais. Mesmo atrás das grades e respondendo por um homicídio covarde e eivado de perversidade, o miliciano não foi esquecido. Flávio Bolsonaro, então deputado estadual, e seu pai, Jair Bolsonaro, à época deputado federal, visitaram o ex-capitão na prisão pelo menos duas vezes.

Uma dessas visitas ocorreu durante um motim no BEP, onde os Bolsonaro alegaram estar “resolvendo uma crise”. Sim, eles iam à cadeia de ex-PMs bandidos rebelados para “negociar”. A outra foi ainda mais emblemática: uma cerimônia para a entrega da Medalha Tiradentes, a maior honraria do estado do Rio, proposta por Flávio. O então deputado não viu qualquer impedimento em condecorar um homem preso por assassinatos covardes. Pelo contrário, apresentou moções de louvor e discursos inflamados. O patriarca, da tribuna da Câmara Federal, reforçou o coro, chamando Adriano de “brilhante oficial” e “herói”. Pois é, um miliciano perverso, que matava por encomenda, sendo elogiado em duas casas parlamentares por pai e filho. O que os Bolsonaro chamavam de heroísmo, a Justiça e os moradores das favelas viam como barbárie sistêmica.

“Rachadinha” e o elo financeiro do Escritório do Crime

A amizade não era apenas ideológica ou de “instrução técnica”; ela era, sobretudo, financeira. As investigações do Ministério Público do Rio sobre o esquema de “rachadinha” no gabinete de Flávio Bolsonaro revelaram que os tentáculos de Adriano chegavam diretamente ao orçamento público. O operador Fabrício Queiroz, amigo comum de ambos desde os tempos do 18º Batalhão em Jacarepaguá, foi a ponte necessária. Foi por meio de Queiroz que a mãe de Adriano, Raimunda Veras Magalhães, e sua ex-mulher, Danielle Mendonça da Costa, foram lotadas no gabinete de Flávio por anos como funcionárias fantasmas.

O MP apontou que elas jamais trabalharam efetivamente e que o próprio Adriano se beneficiava do confisco dos salários. Em mensagens interceptadas, o miliciano deixava claro que contava com o dinheiro repassado por Danielle a Queiroz. O fluxo financeiro não parava por aí: contas ligadas a Adriano foram usadas para transferir valores ao operador do esquema, evidenciando que o crime organizado e o mandato parlamentar operavam em conta conjunta. Enquanto Flávio desfilava como defensor da lei, o dinheiro que mantinha seu ecossistema político vinha, em parte, de um homem que transformava a morte em negócio.

Escritório do Crime: Gestão empresarial da barbárie

Enquanto Flávio crescia politicamente, Adriano profissionalizava o assassinato de aluguel. O Escritório do Crime, grupo criado em 2009 e liderado por ele, era uma estrutura de gestão praticamente empresarial. Com cerca de 70 “funcionários” divididos em núcleos de inteligência, finanças e logística, a quadrilha diversificou seus lucros. Eles dominavam o setor imobiliário ilegal, erguendo prédios irregulares na Muzema e em Rio das Pedras que muitas vezes desabavam sobre os moradores. Além disso, controlavam a venda de gás, internet clandestina e praticavam agiotagem, faturando até R$ 1,6 milhão por mês apenas com empréstimos a juros extorsivos.

A especialidade, contudo, permanecia sendo a pistolagem de elite. Utilizando táticas aprendidas no Bope, os matadores de Adriano monitoravam a rotina de suas vítimas por meses, usavam veículos clonados e roupas camufladas. Cada encomenda de morte custava entre R$ 100 mil e R$ 1,5 milhão. O método preferido, o tiro de fuzil no rosto, servia como um recado de impunidade. O “Capitão” exercia tal fascínio e temor que, mesmo expulso da PM em 2014, continuava sendo reverenciado no submundo como o homem que “só quem tinha peito de aço” ousava enfrentar.

Do Bope ao bicho: A trajetória do “bom matador”

A carreira de Adriano na PM, iniciada em 1996, parecia destinada ao topo da corporação. Atirador de elite treinado em São Paulo, ele era considerado “um bom matador” até por delegados que o investigavam. Essas habilidades despertaram o interesse de bicheiros como Waldomiro Paes Garcia, o Maninho. Adriano passou a transitar entre o dever policial e o serviço de leão de chácara para a contravenção, servindo como segurança para a elite do jogo do bicho.

Foi nesse período, entre o 18º BPM e os currais eleitorais da Zona Oeste, que a aliança com Queiroz e, consequentemente, com os Bolsonaro, se solidificou. Após o assassinato de Maninho em 2004, Adriano mergulhou de cabeça na guerra fratricida pelo espólio do bicheiro, deixando um rastro de sangue que culminaria em sua expulsão da PM dez anos depois. Longe da farda, ele se tornou o “capo” absoluto, unindo a técnica militar à crueldade das milícias, sempre mantendo o canal aberto com o gabinete de seu amigo deputado.

A cara de pau e o projeto presidencial

Hoje, o senador Flávio Bolsonaro tenta impor uma espécie de amnésia seletiva aos eleitores brasileiros. Quando confrontado, utiliza a nota padrão de sua assessoria, alegando que “à época das homenagens era impossível prever” que Adriano se tornaria um criminoso. É um argumento que beira o escárnio. Adriano foi homenageado enquanto estava preso, respondia por homicídio e era reconhecidamente um criminoso perigoso. Suas relações com a contravenção eram notórias no Rio de Janeiro e só cresceram, junto com a amizade do clã que chegaria ao Palácio do Planalto anos depois.

A desfaçatez de Flávio em se apresentar como uma alternativa ética para a Presidência da República ignora o fato de que ele foi o maior fiador político de um dos homens mais perigosos do Brasil. O senador que hoje fala em “ordem” e “combate ao crime” é o mesmo que confraternizava e dava medalha a quem espalhava o caos e o terror; o sujeito que fala em “família tradicional” é o mesmo que empregou a família de um matador de aluguel em um esquema de desvio de dinheiro público.

A pretensão de Flávio ao Palácio do Planalto não é apenas uma estratégia política, é um teste de fogo para a memória do país. Como um parlamentar que teve como amigo, instrutor de tiro e sócio financeiro informal o líder do Escritório do Crime, a mais poderosa milícia do país, pode pretender comandar a nação? O cadáver de Adriano da Nóbrega, abatido em 2020 no interior da Bahia, em circunstâncias estranhíssimas, continua sendo o maior arquivo vivo, e morto, das conexões sombrias do clã Bolsonaro com o que há de mais podre na segurança pública brasileira. A história, documentada em milhares de páginas de processos, investigações e reportagens, mostra que, para Flávio, o crime nunca foi um adversário, mas um velho e condecorado companheiro de jornada.

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