A quilômetros de distância do epicentro de um escândalo financeiro que sacudiu o mercado brasileiro, o bispo Edir Macedo recorreu ao que sabe fazer de melhor: usar a retórica religiosa para responder a crises terrenas. De Miami, nos Estados Unidos, o fundador da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e controlador do Banco Digimais publicou uma passagem bíblica enigmática nesta quarta-feira (24), menos de 24 horas após a Polícia Federal deflagrar a Operação Miragem.
Em seu blog oficial e em seus perfis nas redes sociais, como o X (antigo Twitter), Macedo publicou um texto sobre Ezequias, rei de Judá. O trecho reproduzido de II Crônicas destaca que o monarca “não correspondeu ao benefício que lhe fora feito” e que, por ter o “coração exaltado”, atraiu sobre si uma “grande ira”.
Sem citar a corporação policial, o bloqueio de centenas de milhões de reais ou as graves acusações de maquiagem contábil contra o Digimais, o líder religioso deixou no ar um recado que, nos bastidores da política, soou como uma advertência cifrada em meio ao avanço das investigações sobre os operadores da instituição financeira.
O contraste entre a pregação sobre a “ira divina” e a realidade material do bispo é o retrato de um império sem fronteiras. Edir Macedo não foi alvo direto de mandados de busca e apreensão na terça-feira (23) por um motivo simples e geográfico: ele reside nos Estados Unidos, blindado pelo superluxo da costa leste americana.
O aviso bíblico foi disparado de um dos endereços mais caros e exclusivos do planeta. Macedo mora em um apartamento na suntuosa Porsche Design Tower, localizada em Sunny Isles Beach, na região metropolitana de Miami. O imóvel de altíssimo padrão, avaliado em cerca de R$ 17 milhões, ostenta um requinte peculiar de engenharia: o “Dezervator”, um elevador automotivo privativo que permite ao morador estacionar seus veículos de luxo diretamente dentro da própria sala de estar, a dezenas de andares de altura.
Enquanto a PF brasileira apura crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, incluindo gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em balanços para esconder rombos e operações de crédito vedadas , Macedo observa o derretimento reputacional de seu banco do conforto de uma fortaleza de vidro voltada para o Oceano Atlântico.
A Operação Miragem, que mobilizou mais de 50 policiais federais em São Paulo para cumprir nove mandados de busca e apreensão, atingiu o coração financeiro do projeto de poder da Universal. A Justiça Federal determinou o bloqueio de até R$ 670,3 milhões em bens e valores, além de autorizar o afastamento dos sigilos bancário e fiscal dos investigados, medida que, como mostrada pela Fórum, também teve o próprio Edir Macedo como alvo de pedidos de quebra de sigilo pela PF.
Segundo a investigação, iniciada a partir de relatórios do Banco Central, a cúpula do banco manipulava registros para aparentar solvência diante dos órgãos de controle, viabilizando operações irregulares no mercado.
A crise do Digimais não é um raio em céu azul. Como a Fórum vem detalhando em suas reportagens , as ramificações do banco evidenciam forte influência nos bastidores de Brasília e dos estados. A transformação do antigo Banco Renner no atual Digimais foi chancelada pelo Banco Central sob a presidência de Roberto Campos Neto. Mais recentemente, o banco garantiu um filão lucrativo no estado de São Paulo ao ser credenciado no governo de Tarcísio de Freitas, nome umbilicalmente ligado ao partido da Universal, o Republicanos, para operar empréstimos consignados a policiais militares.
Em nota, o Banco Digimais afirmou que permanece à disposição das autoridades e reafirmou seu “compromisso com a transparência”. A quebra dos sigilos, no entanto, promete puxar o fio de uma teia complexa. Até lá, o bispo segue em sua torre blindada na Flórida, empunhando as escrituras sagradas como escudo de relações públicas e palanque político.
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