A Polícia Civil de São Paulo deflagrou nesta segunda-feira (1º) a Operação Wi-Fi, que investiga supostas irregularidades em um contrato firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil (ICB) para a instalação de pontos de internet gratuita em comunidades periféricas da capital. Segundo as investigações, o município teria pago valores até 230% superiores aos praticados no mercado.
O contrato sob suspeita foi firmado entre a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) e o ICB, entidade representada por Karina Ferreira da Gama. De acordo com os investigadores, foram identificados indícios de irregularidades desde a fase de contratação, incluindo questionamentos sobre a capacidade técnica da instituição, suposto superfaturamento, descumprimento de metas e pagamentos antecipados sem a devida prestação dos serviços.
Segundo a apuração policial, enquanto a empresa pública Prodam cobrava R$ 306 por ponto de Wi-Fi, além de cerca de R$ 200 mensais para manutenção, o acordo com o ICB previa o pagamento fixo de R$ 1.800 por ponto instalado. Para os investigadores, a diferença representa um valor significativamente acima dos parâmetros de mercado.
Outro ponto levantado pela polícia é a suposta falta de experiência do instituto na área de telecomunicações. Conforme o relatório da investigação, o ICB teria histórico de atuação concentrado em feiras literárias e eventos religiosos, sem experiência comprovada na implantação e manutenção de redes de internet.
As autoridades também apontam que a entidade teria instalado apenas 3,2 mil dos 5 mil pontos previstos inicialmente. Para justificar os atrasos, segundo a investigação, teriam sido firmados três termos aditivos em curto intervalo de tempo.
Além disso, a polícia suspeita que a administração municipal tenha antecipado aproximadamente R$ 26 milhões ao instituto sem a correspondente execução dos serviços. Os investigadores afirmam ter encontrado registros de pagamentos referentes a 3,2 mil pontos quando apenas seis estariam efetivamente em funcionamento em determinado período analisado.
A investigação também busca apurar uma possível conexão entre os recursos do contrato e a produtora Go Up Entertainment Ltda., controlada por Karina Ferreira da Gama. Segundo a suspeita levantada pela polícia, parte dos recursos poderia ter sido desviada para financiar a produção do filme “Dark Horse“, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A produção já vinha sendo alvo de controvérsias após revelações envolvendo o financiamento do projeto. O filme foi coordenado pelo deputado federal Mario Frias (PL-SP), e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) admitiu ter buscado apoio financeiro junto ao banqueiro Daniel Vorcaro para viabilizar a produção.
Segundo informações já divulgadas sobre o caso, ao menos R$ 61 milhões teriam sido destinados ao projeto por meio de uma empresa ligada ao Banco Master e de um fundo de investimentos sediado no Texas, nos Estados Unidos, onde reside o deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Os filhos do ex-presidente negam qualquer irregularidade no financiamento do filme.
Em nota, a Prefeitura de São Paulo informou que está colaborando integralmente com as investigações e afirmou que toda a documentação solicitada pelas autoridades já havia sido disponibilizada anteriormente por meio dos mecanismos de transparência pública.
A gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) também contestou as conclusões preliminares da investigação. Segundo a administração municipal, o custo estimado do programa em 2026 será de R$ 1.280 por ponto ao mês, valor que considera inferior às propostas recebidas em 2022, que variavam entre R$ 2.026 e R$ 5.092 por ponto.
A prefeitura afirmou ainda que o programa funciona normalmente e que, na manhã desta segunda-feira, apenas 52 dos 3,2 mil pontos contratados estavam temporariamente fora de operação para manutenção. A administração também negou ter efetuado pagamentos referentes a 5 mil pontos e sustentou que os aditivos contratuais tiveram como objetivo apenas garantir a manutenção da estrutura já instalada.
Por fim, o município declarou que o chamamento público foi realizado em 2024, antes mesmo da produção do filme “Dark Horse”, e que todo o processo seguiu os princípios da legalidade, transparência e economicidade previstos na legislação.
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