Como Eduardo montou nos EUA rede de contatos que o levaram a Donald Trump e à condenação no STF

Expedição de seis dias e 15 compromissos nos Estados Unidos em novembro de 2018 ajudou a construir a rede de relacionamentos que o deputado hoje aciona para tentar punir o STF; procurado, deputado não se manifestou

Por Guilherme Caetano | O Estado de S.Paulo

21/06/2026

Como Eduardo montou nos EUA rede de contatos que o levaram a Donald Trump e à condenação no STF
O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) no jantar de aniversário de Steve Bannon em 2018, em Washington Foto: Divulgação
BRASÍLIA — Passava das 20h quando Steve Bannon chamou a atenção dos convidados com algumas batidinhas na taça de vidro. Ele agradeceu à presença das mais de 50 pessoas que tinham comparecido ao seu jantar de aniversário de 65 anos, em sua casa em Capitol Hill, Washington DC, e afirmou ter um convidado ilustre naquela noite.
 
Bannon apontou para Eduardo Bolsonaro — então deputado federal pelo PSL de São Paulo e cujo pai, Jair Bolsonaro, havia acabado de ser eleito presidente da República após derrotar Fernando Haddad (PT) — e declarou que o brasileiro seria o representante do The Movement no Brasil. Era uma referência ao grupo internacional de ultradireita fundado por ele.
 
A festa na casa de Bannon, estrategista da campanha vitoriosa de Donald Trump à Casa Branca em 2016, coroava uma semana de agendas na capital americana, em Nova York e na Flórida. Os contatos feitos naquela semana, entre 26 de novembro e 1º de dezembro de 2018, hoje facilitam o acesso de Eduardo no governo Trump em meio às suas articulações para impôr sanções ao Brasil. Procurado, o deputado não se manifestou.
 
Eduardo vem nutrindo bom relacionamento com alguns dos contatos que conheceu na viagem de 2018. Ele voltaria a se encontrar com muitos deles em idas aos Estados Unidos e mesmo no Brasil, com a organização da versão brasileira do CPAC, uma conferência ligada à direita trumpista.
 
A articulação de Eduardo o colocou no alvo de autoridades brasileiras. Ele foi condenado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) na terça-feira, 16, a quatro anos e dois meses de reclusão, em regime inicial semiaberto, pela prática do crime de coação no curso do processo. O colegiado entendeu que ele atuou para interferir no julgamento da ação penal em que seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, foi condenado por tentativa de golpe de Estado.
 
Segundo a denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR), o ex-deputado fez declarações públicas e publicações em redes sociais em que afirmou ter feito gestões para que o governo dos Estados Unidos impusesse sanções a autoridades brasileiras, incluindo ministros do STF, e medidas econômicas ao País, em razão do que considera uma perseguição política a seu pai.

A ponte para Washington

A expedição de 2018 fora organizada pelo cientista político Márcio Coimbra, que tinha trabalhado com o Partido Republicano durante sete anos, em campanhas eleitorais e no Leadership Institute, que realiza treinamento para candidatos da legenda. O então secretário de assuntos internacionais do PSL, Filipe Martins, que viria a ser nomeado assessor especial para assuntos internacionais da Presidência da República, também os acompanhou. Tinha vindo dele, afinal, a iniciativa da viagem.

Na casa de Bannon, por exemplo, Eduardo conheceu Sebastian Gorka, que havia sido auxiliar de Trump em 2017 e viria a ser nomeado diretor sênior de contraterrorismo na Casa Branca em 2025. Gorka é hoje um dos contatos do deputado mais próximos ao presidente americano.
 
A primeira agenda do trio em Washington, em 2018, foi com a então subsecretária do Departamento de Estado, Kim Breier. A americana estava preocupada com a situação na Venezuela, e Eduardo lhe disse que Cuba “infiltrava” pessoas no Brasil por meio do programa Mais Médicos, com apoio da Venezuela, mas que seu pai acabaria com o projeto — o país caribenho tinha anunciado, na semana anterior, a suspensão da parceria com o Brasil após Bolsonaro assumir o poder.
 

Mais Médicos, implementado pelo governo Dilma Rousseff, ficou associado a Cuba por ter aberto espaço para profissionais da saúde vindos do país caribenho, já que muitos médicos brasileiros tinham resistência para trabalhar em cidades do interior. Em agosto, o governo Trump revogou o visto de um secretário do Ministério da Saúde do Brasil por causa do programa.

Em seguida, eles participaram de uma mesa redonda no American Enterprise Institute, organizada por Roger Noriega, ex-secretário-adjunto de Estado para Assuntos do Hemisfério Ocidental no governo George W. Bush. A agenda da tarde foi com David Malpass, sub-secretário do Tesouro, para quem Eduardo disse que o governo de seu pai seria pró-livre mercado.
 
Eduardo, Martins e Coimbra foram recebidos na mesma noite no gabinete do secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro. O uruguaio tinha uma postura crítica à condução da democracia na Venezuela, e ouviu do filho do presidente que o governo brasileiro estaria alinhado à OEA nesse assunto.
 
O dia seguinte teve um constrangimento para o grupo, que fora até a Casa Branca para uma agenda no National Security Council (NSC, o Conselho de Segurança Nacional). Eduardo foi barrado na portaria porque Martins havia trocado os campos de dia e mês ao preencher a data de aniversário do deputado no credenciamento para entrada no prédio — no formato americano, o mês vem antes do dia na notação de data.
 
Como os dados não batiam, Eduardo não pôde entrar, e três membros do NSC tiveram de encontrá-los num Starbucks próximo. A saia-justa levou ao cancelamento da reunião que eles teriam naquela manhã com Jared Kushner, casado com Ivanka, filha de Trump, e então conselheiro sênior na Casa Branca.

Ruídos na imprensa

O almoço foi feito do outro lado da Lafayette Square, durante um evento organizado pelo Brazil-US Business Council, organização que busca fortalecer as relações entre os dois países. Na ocasião, o deputado afirmou aos cerca de 60 empresários que a reforma da Previdência, aposta do futuro ministro da Economia Paulo Guedes para ajeitar as contas públicas, talvez não fosse aprovada. A declaração vazou para a imprensa e causou mal-estar no governo de transição de Bolsonaro.
 
Na saída do evento, Eduardo voltaria às manchetes ao afirmar para jornalistas que a transferência da Embaixada do Brasil de Jerusalém para Tel-Aviv “não era uma questão de se, mas quando” seria feita. À tarde, eles se reuniram com Jim Sensenbrenner, um deputado republicano pró-armas — assunto que dominou o bate-papo.
 
Na manhã seguinte, quarta-feira, 28 de novembro, Kushner conseguiu recebê-los em seu gabinete após Martins refazer o credenciamento. O genro de Trump ouviu que seria importante se o presidente americano pudesse comparecer à posse de Bolsonaro em Brasília, em 1º de janeiro, e disse que levaria o convite ao sogro. A vinda de Trump acabaria não acontecendo.

Agenda de ouro

Após o almoço, os brasileiros tiveram uma agenda de peso com os senadores Marco Rubio (hoje secretário de Estado de Trump e homem forte da diplomacia americana), Rick Scott e Ted Cruz. Após uma “conversa de elevador”, Rubio fez uma reunião com Eduardo e Roger Noriega a portas fechadas. Em seguida, eles ouviram de Cruz mais uma vez a preocupação com a Venezuela — uma espécie de fixação dos americanos nas conversas com os brasileiros, pois havia curiosidade de como um governo de direita, sob Bolsonaro, lidaria com um regime de esquerda que dilapidava ano a ano a democracia venezuelana.
 
Eles foram a Nova York no dia seguinte para uma agenda com Rudy Giuliani, ex-prefeito republicano de Nova York e advogado de Trump, em Upper East Side. A pauta girou em torno da segurança pública, e o americano compartilhou a experiência com seu programa Tolerância Zero no combate à violência na cidade.
 
Giuliani é outro contato com acesso íntimo a Trump. Em setembro, o presidente dos Estados Unidos anunciou que vai condecorar o ex-prefeito com a Medalha Presidencial da Liberdade, maior honraria do Estado americano. Menos de 700 pessoas foram agraciadas desde que a medalha foi instituída pelo presidente John F. Kennedy, em 1963.
 
O restante da agenda naquele dia foi no escritório de advocacia Alvarez & Marsal, onde Eduardo falou sobre a agenda de privatizações de Paulo Guedes.
 
Na sexta-feira, Eduardo, Martins e Coimbra se encontraram com a comunidade de brasileiros em Mar-a-Lago, resort de luxo de Trump em Palm Beach. A expedição foi encerrada ali, já que no dia seguinte o trio teria um encontro em Miami com Jeb Bush, mas a morte do pai, George H. W. Bush, fez o americano cancelar a agenda.
 
Como mostrou o Estadão, o “networking” de Eduardo o ajudou a construir uma campanha contra Moraes no exterior. O deputado vinha pressionando o ministro e outras autoridades para impedir a condenação do pai por tentativa de golpe de Estado, e livrar da cadeia todos os envolvidos nos ataques do 8 de Janeiro. O ex-presidente acabou condenado a 27 anos e três meses de prisão em 11 de setembro.

Futuro incerto

Agora condenado, Eduardo precisará se reinventar. Ele é suplente do pré-candidato ao Senado por São Paulo, André do Prado (PL), mas os planos foram por água abaixo.
 
Por se tratar de condenação por órgão colegiado por crime contra a administração pública, a ação da terça-feira passada causou sua inelegibilidade, da data da condenação até oito anos após o cumprimento da pena. Ele também perdeu o cargo público de escrivão da Polícia Federal.
Notícia anterior
Próxima notícia

Deixe seu comentário

Mais lidas na semana

Confrontos em Rio das Pedras chegam ao 10º dia; madrugada foi de tiroteio
Confrontos em Rio das Pedras chegam ao 10º dia; madrugada foi de tiroteio
Câmara de Belford Roxo mantém diretor condenado a 17 anos de prisão
Câmara de Belford Roxo mantém diretor condenado a 17 anos de prisão
Alcolumbre trava fim da escala 6×1, mas acelera PEC que impõe rombo de R$ 28 bi ao governo Lula
Alcolumbre trava fim da escala 6×1, mas acelera PEC que impõe rombo de R$ 28 bilhões ao governo Lula
PSDB e PSD pagaram R$ 1,1 milhão para aliada da “rainha do pó” em MG
PSDB e PSD pagaram R$ 1,1 milhão para aliada da “rainha do pó” em MG (VIDEO)
Granada é encontrada durante mutirão de limpeza em praia de Arraial do Cabo
Granada é encontrada durante mutirão de limpeza em praia de Arraial do Cabo

As consequências do seu voto.

© 2026 Criado por AquiTem! Internet