Caso Master: não está faltando alguém nas buscas da PF e do STF?

Não é crível fazer busca contra dois senadores e não contra Flávio Bolsonaro, com áudio, dinheiro e mentira

Por Eliane Cantanhêde | O Estado de S.Paulo

20/06/2026

Caso Master: não está faltando alguém nas buscas da PF e do STF?
Combo Flávio Bolsonaro, Ciro Nogueira e Jacques Wagner. Fotos: Wilton Junior/Estadão - Geraldo Magela e Waldemir Barreto/Ag Senado Foto: Wilton Junior/Estadão e Geraldo
Dois senadores de polos políticos opostos, Jaques Wagner, do PT, e Ciro Nogueira, do PP, já sofreram operação de busca e apreensão, a pedido da PF e com autorização do relator, ministro André Mendonça, por suspeita de recebimento de altos valores e favores no caso Master. Não ficou faltando alguém? E o também senador Flávio Bolsonaro, do PL?
 
Essa é a pergunta que não quer calar e encontra mais dúvidas e interpretações do que respostas técnicas e jurídicas inquestionáveis. Como o processo corre sob sigilo (a la brasileira), não se sabe sequer se a PF já fez ou não o pedido de busca contra Flávio e se esse pedido foi ou não analisado por André Mendonça. Em qualquer dos casos, vale o velho e bom “por quê?”
 
Tudo isso complica ainda mais, por Flávio ser, não apenas senador e enrolado com suspeitas anteriores, como rachadinhas, imóveis e envolvimento com milícias no Rio de Janeiro, mas candidato à Presidência da República. E por Mendonça ter sido nomeado por Jair Bolsonaro para o STF.
 
A PF tem provas irrefutáveis, inclusive com áudios, de que Flávio pediu a bagatela de R$ 134 milhões para Daniel Vorcaro, do Master, supostamente para financiar o filme “Dark Horse”, sobre o pai, e de que foi a São Paulo para um encontro olho a olho com o banqueiro, quando ele já estava preso em casa, de tornozeleira eletrônica.
 
Jaques Wagner, a bola da vez, líder do governo e velho amigo do presidente Lula, não tem do que reclamar e ninguém questiona a busca e a apreensão de celulares, dólares, euros e relógios caríssimos, depois de comprovado que ele ganhou apartamento de R$ 2,5 milhões, viagens em jatinhos e entrada de shows da turma do Master. Sem contar mesadas e contratos para a família.
 
Ciro Nogueira, que preside o PP e foi chefe da Casa Civil do governo Jair Bolsonaro, nem se fala. Bife banhado a ouro em Nova York, jatinhos para lá e para cá, estações de esqui na Europa e mesadas que chegaram, no mínimo, a R$ 6 milhões… E foi ele quem assumiu como sua, e apresentou no Senado, uma emenda não apenas favorecendo o Master, mas escrita no próprio Master.
 
Uma explicação para as operações só contra dois dos três senadores é que a questão não é “quem pediu dinheiro”, mas qual a finalidade, quais as vantagens pessoais e se havia contrapartidas.

Enquanto os “pagamentos” de Wagner e Nogueira a Vorcaro e ao Master são estridentes, como na própria emenda que ampliava o teto do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), até agora não surgiram evidências de que Flávio “pagou”, ou como pagou, a dívida.
 
Sim, o argumento faz sentido e é reforçado pela versão de Flávio de que foi um “acerto privado”, mas não anula um dos motivos para busca e apreensão, que é preservar provas — quanto mais o tempo passa, mais as provas evaporam. Até por isso, não parece crível fazer operações contra dois senadores envolvidos e não contra outro, com áudio, viagem, dinheiro na conta, aliás, aqui e no exterior. E não foi pouco dinheiro…
 
Uma possibilidade é que a PF e/ou André Mendonça queiram amadurecer mais as investigações contra Flávio, sem deixar qualquer margem de dúvida, antes de operações com muito impacto na opinião pública, em ano eleitoral e com a percepção de que a PF é “de Lula” e Mendonça, “de Bolsonaro”.
 
Venha quando vier, se vier, uma operação de busca contra Flávio terá enorme repercussão. O áudio já estancou o seu crescimento nas pesquisas e, no Datafolha deste fim de semana, Lula está dez pontos à frente no primeiro turno (41% a 31%). Qualquer coisa que a PF descubra em endereços, celulares e computadores de Flávio pode fazer diferença. Se é que ainda há algo “preservado”?
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