Piloto filmou sacola com suposto dinheiro destinado a Ciro Nogueira, diz relatório da PF (VIDEO)

Relatório da PF aponta que mensagem entre Vorcaro e Zettel sobre repasse ocorreu um ano após a viagem

Em táxi aéreo, empresário Beto Louco teria perguntado se 'senador Ciro já estava aguardando'; parlamentar ainda não se pronunciou

Por Gabriela Cecchin | Folha de S.Paulo

24/06/2026

Piloto filmou sacola com suposto dinheiro destinado a Ciro Nogueira, diz relatório da PF (VIDEO)
Ciro Nogueira (à esq) e Daniel Vorcaro (à dir) próximos ao Aeroporto Internacional de Fort Lauderdale-Hollywood, EUA - Reprodução

São Paulo – A Polícia Federal investiga se uma sacola que o piloto Mauro Caputti Mattosinho afirma ter transportado em um voo para Brasília, em 6 de agosto de 2024, seria destinada ao senador Ciro Nogueira (PP-PI).

A informação foi publicada inicialmente pelo portal ICL Notícias e obtida pela Folha por meio dos documentos da investigação e de entrevista com o piloto.
 
Mattosinho trabalhou na TAP (Táxi Aéreo Piracicaba) e afirma ter transportado regularmente o empresário Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como Beto Louco, alvo de operação por fraudes no setor de combustíveis.
 
A investigação da PF apontou que Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, enviou ao operador financeiro Fabiano Zettel a mensagem: “Resolve Ciro e galerias hoje / Manda agora la”. Em resposta, Zettel encaminhou uma lista de pagamentos pendentes, na qual aparece a anotação “Espécie Ciro 350k”.
 

De início, a polícia acreditou que as mensagens teriam sido enviadas na mesma data da viagem; no entanto, após reavaliação detalhada do material, constatou-se que a conversa se deu no dia 6 de agosto de 2025, exatamente um ano depois.

Ainda assim, a PF afirma que mantém suas suspeitas de dinheiro em espécie enviado ao parlamentar, com base tanto no relato do piloto quanto nas mensagens trocadas no ano seguinte.
 
Procurado por WhatsApp desde a manhã de sexta-feira (19), Ciro Nogueira ainda não se posicionou.
 
A defesa de Daniel Vorcaro disse que não irá comentar.
 
Advogados de Roberto Leme afirmaram à reportagem que nega qualquer transporte de recursos, bem como qualquer vínculo com Vorcaro, e diz que o empresário “nunca sequer deu um ‘bom dia’ ao ex-banqueiro ou pessoas ligadas a ele.
 
Já a empresa TAP afirma que desconhece os fatos noticiados e que sua operação está “de acordo com a legislação pertiente, seguindo rigorosas regras de compliance”.
 
Em declaração encaminhada à PF, Mattosinho relata que, em 6 de agosto de 2024, fazia o trajeto São Paulo-Brasília na aeronave PR-SMG quando recebeu do gestor uma sacola de papel que deveria receber “cuidado especial” porque continha “grana”.
 
Segundo o piloto, o peso e o formato da embalagem o fizeram concluir que havia dinheiro em espécie no interior. “Eu fiz aquele vídeo no intuito de demarcar que eu não estava maluco”, disse posteriormente à PF.
 
Ao pousar em Brasília, Mattosinho afirma que permaneceu na cabine enquanto os passageiros desembarcavam. Foi nesse momento, segundo ele, que ouviu Beto Louco perguntar a um funcionário se “estava tudo certo com o Ciro” e se “o senador Ciro já estava aguardando a gente”.
 
O piloto afirma ter entendido que a referência era a Ciro Nogueira. Beto Louco levou a sacola para fora da aeronave, segundo o piloto, e não voltou com ela para São Paulo.

SOB AMEAÇA, PILOTO VIVE SEM RESIDÊNCIA FIXA DESDE DEPOIMENTO

Mattosinho afirma que passou a receber ameaças após começar a reunir documentos e procurar a Polícia Federal. Segundo ele, uma pessoa telefonou descrevendo o endereço de uma familiar e ameaçando cometer violência sexual contra ela.
 
Em outro episódio, relata que uma mulher de sua família percebeu, por três sábados seguidos, um homem fotografando a frente de sua casa. Ele também diz que pessoas que se apresentaram como policiais o procuraram em um endereço antigo, sem deixar qualquer documento ou intimação.
 
O piloto afirma ter contratado um especialista particular em proteção de testemunhas e adotado protocolos de segurança.
 
Segundo ele, o advogado chegou a apresentar a possibilidade de solicitar sua inclusão no Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas, previsto em lei para pessoas que correm risco em razão da colaboração com investigações e processos judiciais, mas Mattosinho considerou que os impactos em sua vida pessoal e profissional seriam excessivos.
 
O advogado especialista em direito penal Leonardo Tajaribe explica que a testemunha que está em situação de risco não é obrigada a entrar no programa, que pode impor limitações de contato, mudanças de rotina e, em alguns casos, alteração de endereço, afastamento do círculo social e medidas de sigilo.
 
“Se incluída no programa, a testemunha não pode transformar a proteção em um cardápio de preferências. O programa funciona com regras próprias de segurança, apesar de algumas medidas serem negociadas dentro do possível”, afirma.
 
Já o advogado criminalista Lucas Monteiro, sócio da Monteiro Porto & Perassoli Sociedade de Advogados, explica que serviços privados de segurança podem oferecer maior flexibilidade na gestão da rotina e permitir que a pessoa mantenha maior controle sobre suas decisões de deslocamento e contatos.
 
Há dez meses, o piloto vive mudando de endereço a cada duas semanas e não consegue exercer a carreira na aviação executiva, setor em que trabalhou por 17 anos.
 
“Meu trabalho dos sonhos. Meu pai era piloto, sempre quis ser piloto. Não está dando mais, infelizmente”, afirmou durante a entrevista. “Eu denunciei um crime e minha vida está absolutamente em frangalhos, profissionalmente.”
 
Ele diz acreditar que será difícil conseguir voltar a trabalhar no setor. “Todo mundo que é usuário desse sistema de aviação executiva se conhece. Então eu me tornei meio que uma ‘persona non grata’, pelo menos por um tempo”, disse.
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