Ronaldo Caiado (PSD) acusou Lula de “vender o Brasil” no debate sobre terras raras, mas documentos públicos mostram que a principal operação brasileira do setor, instalada em Goiás, entrou na estratégia dos Estados Unidos durante o ciclo político comandado pelo ex-governador. A Serra Verde, dona da mina Pela Ema, em Minaçu (GO), fechou acordo para ser comprada pela norte-americana USA Rare Earth em uma transação de cerca de US$ 2,8 bilhões.
A contradição envolve três movimentos: a criação de uma autoridade estadual para minerais críticos em Goiás, a assinatura de um memorando com os Estados Unidos e a celebração de um financiamento de US$ 565 milhões de uma agência do governo americano para a Serra Verde. Na sequência, a mineradora brasileira anunciou a combinação com a USA Rare Earth.
Ao tentar inverter a narrativa e acusar o presidente, Caiado recolocou Goiás no centro da disputa. Documentos e apurações da Revista Fórum mostram que a transação direciona a principal planta do país para a cadeia de suprimentos estadunidense, transformando o caso em um severo debate de soberania mineral no governo federal, no Congresso e na Procuradoria-Geral da República.
A USA Rare Earth anunciou a compra de 100% da Serra Verde Group. O negócio, que envolve US$ 300 milhões em dinheiro e emissão de ações, tem previsão de conclusão para o terceiro trimestre de 2026. A operação vai muito além da troca de controle: a Serra Verde possui um contrato de fornecimento de 15 anos para 100% de sua produção da Fase I de terras raras magnéticas (neodímio, praseodímio, disprósio e térbio).
O acordo de fornecimento foi firmado com uma estrutura de propósito específico capitalizada por órgãos do governo dos EUA e fontes privadas, com preços mínimos garantidos. A própria Serra Verde confirmou que o objetivo é criar uma cadeia “da mina ao ímã” fora da Ásia, integrando a única operação em escala fora do continente asiático ao esforço de Washington para reduzir a dependência do processamento dominado pela China.
O avanço do capital norte-americano sobre a mineração em Goiás foi pavimentado e celebrado localmente. Em agosto de 2025, Caiado sancionou a Lei Estadual nº 23.597, criando a Autoridade Estadual de Minerais Críticos (AMIC-GO). Em março de 2026, o governador deu outro passo e assinou um memorando de entendimento com os EUA para cooperação no setor.
Antes mesmo do anúncio de venda para a USA Rare Earth, o governo goiano já havia comemorado publicamente um financiamento de US$ 565 milhões da Corporação Financeira dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (DFC) à Serra Verde. O aporte americano incluiu a opção de o governo dos EUA adquirir participação acionária minoritária na mineradora. Esse movimento oficial do estado fragiliza a acusação de Caiado contra o governo federal, uma vez que sua própria gestão tratou a submissão aos interesses estadunidenses como vitória.
A tentativa de transformar Goiás em um modelo independente esbarra na Constituição Federal, que estabelece os recursos do subsolo como bens da União, a quem cabe de forma exclusiva manter relações com Estados estrangeiros e legislar sobre jazidas.
No âmbito federal, a posição é diametralmente oposta ao modelo de exportação bruta chancelado em Goiás. O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, deixou clara a rota do Palácio do Planalto ao comentar a disputa:
“Não queremos ser um exportador de matéria-prima. Não vamos cometer o equívoco de imaginar que mineral crítico ou terra rara no país seja objeto de exportação. Não pode ser. Tem que ser de industrialização. É um grande insumo para a indústria”, cravou, segundo a Secretaria de Comunicação Social da Presidência.
A fala do ministro consolida as diretrizes da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos e reforça o alerta contínuo sobre a necessidade de soberania e agregação de valor tecnológico interno.
O direcionamento estratégico da Serra Verde para as indústrias dos EUA acelerou a pressão no Congresso Nacional pela criação da Terrabras, uma estatal desenhada para atuar em toda a cadeia produtiva das terras raras, forçando um embate direto entre projetos de desenvolvimento nacional e pressão estrangeira.
Paralelamente, a venda bilionária e a atuação do governador goiano viraram alvo jurídico. Deputados federais do PSOL acionaram a Procuradoria-Geral da República pedindo a anulação da venda para a USA Rare Earth e apuração de grave ameaça à soberania econômica, além de investigar uma possível extrapolação de competências constitucionais por parte de Caiado, iniciativa que insere as terras raras em uma intensa disputa jurídica e diplomática.
A agressividade de Caiado ao acusar Lula de “vender o Brasil” e tentar usar o estado como vitrine política busca inverter o ônus da responsabilidade. No entanto, o cruzamento de marcos legais locais, financiamentos americanos e contratos de exclusividade confirma que a rota das terras raras brasileiras para os Estados Unidos tem, inegavelmente, o território goiano e as chancelas do ex-governador como ponto de partida.
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