Vorcaro volta para cela comum: hipótese mais provável é que delação não foi aceita

Ministro André Mendonça, do STF, deferiu pedido da Polícia Federal para mudança de cela do dono do Banco Master

Por Marcelo Hailer | Fórum

18/05/2026

Vorcaro volta para cela comum: hipótese mais provável é que delação não foi aceita
Vorcaro - Daniel Vorcaro (Foto: Secretaria da Administração Penitenciária-SP)

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), atendeu a um pedido da Polícia Federal (PF) e autorizou a transferência de Daniel Vorcaro para uma cela comum, onde o banqueiro ficará submetido às regras internas.

Antes, Vorcaro estava custodiado na Superintendência da Polícia Federal de Brasília, na mesma cela em que ficou o ex-presidente Jair Bolsonaro, e isso lhe conferia algumas regalias, entre elas as visitas de advogados, que ocorriam diariamente entre as 9h e as 17h. Na cela comum, as visitas ficam limitadas a duas por dia, com duração de 30 minutos.

O argumento da PF enviado ao ministro Mendonça é que as condições dele na prisão na Superintendência afetavam a rotina do local. Além disso, como a defesa de Vorcaro já entregou a proposta de colaboração, a Polícia Federal decidiu aplicar as regras usadas para os demais custodiados e colocá-lo em carceragem comum.

Mas, para além da alegação burocrática da PF, a transferência de Vorcaro para cela comum pode conter outros significados, entre eles o de que a delação do banqueiro não tenha avançado como se esperava. Em casos de colaboração premiada considerada sensível, robusta ou em fase ativa de negociação, é comum que o preso receba algum tipo de tratamento cautelar diferenciado, seja por razões de segurança, preservação da investigação ou restrição de contato com outros detentos. Por isso, a ida para uma cela comum pode indicar que não houve homologação imediata da delação, que as negociações fracassaram ou que Vorcaro deixou de ter status de preso colaborador.

Também não se pode descartar que a transferência tenha relação apenas com uma decisão administrativa do sistema prisional, sem vínculo direto com eventual delação. Ainda assim, o movimento chama atenção: se existisse uma colaboração premiada já aceita, relevante e considerada sensível pelas autoridades, o caminho esperado seria o de maior proteção e isolamento, e não o retorno à convivência comum. Nesse contexto, a mudança de cela abre uma nova camada de dúvidas sobre o real estágio das negociações de Vorcaro com as autoridades e sobre o alcance das informações que ele poderia entregar.

Delação de Vorcaro esfria após escândalo com Flávio Bolsonaro

A tentativa do proprietário do Banco Master, Daniel Vorcaro, de firmar um acordo de colaboração premiada com as autoridades encontra obstáculos crescentes.

Investigadores da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República avaliam que as informações apresentadas até agora pelo banqueiro são insuficientes para justificar benefícios processuais, segundo reportagem de O Globo.

A primeira proposta formal encaminhada pela defesa de Vorcaro, protocolada em 5 de maio, foi recebida com ceticismo.

O entendimento dos investigadores é que o conteúdo extraído de dispositivos móveis do banqueiro, do cunhado Fabiano Zettel e do ex-operador Phillipi Mourão, alcunhado de Sicário, contém volume de informações superior ao que foi apresentado nas negociações.

Entre os pontos ausentes da proposta inicial estaria o suposto pagamento mensal ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), que teria chegado a R$ 500 mil.

A PF descreve o parlamentar como “destinatário central” de benefícios financeiros atribuídos ao banqueiro, incluindo o uso de imóvel em São Paulo e o financiamento de viagens internacionais com hospedagens, refeições e voos em aeronaves privadas.

A defesa de Vorcaro não se manifestou sobre o caso. A defesa de Ciro Nogueira declarou que “repudia qualquer ilação de ilicitude sobre suas condutas, especialmente em sua atuação parlamentar.”

Também ausentes da proposta inicial seriam conversas entre Vorcaro e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sobre o possível financiamento de um filme biográfico do ex-presidente Jair Bolsonaro, em projeto estimado em R$ 134 milhões, conforme revelação do Intercept Brasil.

Flávio Bolsonaro confirmou os contatos com o banqueiro, mas negou qualquer irregularidade.

A pressão sobre Vorcaro se intensificou com a prisão de seu pai, Henrique Vorcaro, apontado pela PF como operador financeiro de um grupo identificado como “Turma”, descrito como braço armado da organização criminosa investigada.

Segundo os investigadores, uma conta bancária em nome do pai teria sido usada para ocultar R$ 2,2 bilhões de credores e vítimas de fraudes. A defesa de Henrique Vorcaro classificou a prisão de “grave” e “desnecessária.”

Além disso, a PF solicitou ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, o retorno de Daniel Vorcaro ao presídio federal de segurança máxima, revertendo transferência anterior para instalações da Superintendência da PF em Brasília.

Enquanto isso, outros investigados avançam em negociações próprias. O ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Costa, preso sob suspeita de negociar propina de R$ 146 milhões em imóveis para favorecer operações com o Master, tenta assinar acordo de confidencialidade em breve, com previsão de entrega dos anexos da delação em junho.

Investigadores esperam que Costa detalhe o fluxo financeiro das operações no Brasil e no exterior, além de identificar agentes públicos envolvidos.

As apurações apontam para uma transação de R$ 12,2 bilhões entre o BRB e o Master realizada, segundo a PF, por “pura camaradagem” como forma de “abafar a fiscalização” do Banco Central.

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