PCC amplia controle territorial de Paraisópolis e adota táticas do CV em São Paulo

OUTRO LADO: Gestão Tarcísio diz que polícia monitora continuamente a área e que 'enfrentamento ao crime organizado é prioridade'

Facção controla vias, cobra taxas e comanda organizações sociais dentro da favela

Por Rogério Pagnan e Leandro Machado | Folha de S.Paulo

12/04/2026

PCC amplia controle territorial de Paraisópolis e adota táticas do CV em São Paulo
Barreira no meio da rua controla acesso na esquina das ruas Ernest Renan e Melchior Giola, em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo - Folhapress

São PauloVinte anos após orquestrar o maior ataque às forças de segurança de São Paulo, a facção criminosa PCC fez da favela de Paraisópolis, a maior da cidade, seu principal centro de comando. Nos últimos dois anos, o grupo também vem implantando ali um nível inédito de controle territorial, muito mais rígido, com adoção de táticas geralmente atribuídas à facção fluminense CV (Comando Vermelho).

Nas últimas semanas, a Folha conversou com uma dezena de moradores, comerciantes, frequentadores da comunidade, além de promotores e policiais, que falaram sob a condição de anonimato. A reportagem também visitou a favela e acessou documentos em posse do Ministério Público que reforçam tais relatos e que revelam o organograma da criminalidade ali instalada.
 

O cenário descrito é de ampliação do controle exercido pelo PCC sobre Paraisópolis, afetando a rotina dos quase 60 mil moradores. Entre as medidas estão a implantação de taxas a comerciantes, bloqueio de vias de acesso, fiscalização das atividades das organizações sociais e até o uso forçado de lideranças em protestos orquestrados pela facção.

O governo do estado diz que o combate ao crime organizado é sua prioridade, e a associação de moradores negou qualquer vínculo com a facção criminosa (leia mais abaixo).
 
Uma comerciante disse à Folha que vive há décadas na comunidade e que esse quadro se agravou no último ano. “Nunca vi a situação que eu estou vendo a comunidade hoje. As próprias ONGs estão com dificuldade para exercer o seu trabalho.” Segundo ela, que não terá seu nome revelado, as entidades não podem receber ninguém.
 
Outra moradora afirmou ter sido obrigada a pagar uma taxa ao crime organizado para poder fazer um determinado serviço na favela.
 
Quanto ao bloqueio de vias, os moradores indicam ao menos três pontos, um deles no cruzamento das ruas Ernest Renan com Melchior Giola, no chamado “centrinho de Paraisópolis”, perto do campo de futebol. Com a ajuda de um drone, a reportagem da Folha conseguiu registrar esse bloqueio, feito com uma grade de ferro, típica de controle de público em eventos, e vigiada por dois homens.
 
Os moradores ouvidos afirmam que estranhos não passam por ali sem se identificarem, seja dia ou noite.
 
Além de exercer um maior controle da comunidade local, o PCC fez de Paraisópolis o principal palco de resoluções de conflitos envolvendo seus membros. Um promotor afirmou à reportagem que a comunidade se tornou a última instância da facção. Os “réus” de casos graves ou integrantes que exercem função de liderança do bando são levados para a “laje”, como é conhecido o local onde são realizados os “tribunais do crime”. Lá, são julgados e, em caso de condenação, a pena pode ser a morte.

Chegada da facção

A entrada do PCC em Paraisópolis remonta a 2003, três anos antes do mega-ataque de maio de 2006, que teve como saldo a morte de 59 agentes das forças de segurança e, na reação, de 505 civis.

A tomada desse território teria sido liderada por um grupo ligado a Francisco Antonio Cesário da Silva, o Piauí, que venceu uma disputa sangrenta com o grupo de um justiceiro chamado Juarez. O Xerife, como era conhecido, mandava na favela desde os anos 1980 e proibia o comércio de entorpecentes.
 

Um morador local conhecido por Boneco teria dado apoio à tomada de poder pelo PCC e, por isso, tornou-se importante aliado do grupo. Desde então, conforme relato de moradores e testemunhas dessa disputa, o tráfico de drogas na favela, um dos mais significativos da capital, acontece por meio de um revezamento entre os dois grupos. Em um mês a venda é feita pela equipe de Boneco e, no outro, pela equipe de Piauí, do PCC.

O controle ostensivo do território é feito, porém, exclusivamente pelo grupo de Piauí, que voltou à comunidade em 2021 depois de cumprir uma pena de 13 anos. Ele foi o primeiro membro do PCC a ser transferido para o sistema carcerário federal, em 2012, depois de órgãos de inteligência do governo paulista o apontarem como mandante do assassinato de policiais militares.
 
Piauí ficou pouco tempo em Paraisópolis, conforme moradores. Investigações da polícia e da Promotoria o apontam como um dos principais líderes da facção em liberdade. Ele deixou como preposto na comunidade um comparsa apelidado de Barão – atualmente preso –, que ficou responsável por gerenciar o tráfico de drogas.
 
A reportagem não conseguiu descobrir quem cuida atualmente da defesa de Piauí. Na época em que ele estava preso, seus advogados negavam que ele pertencesse ao PCC.

Controle ampliado

No final de 2024, a facção também teria assumido o controle da União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis, entidade responsável por dialogar com o poder público sobre ações na favela. Esse domínio sobre as atividades da entidade teria ampliado o controle da facção sobre os moradores.
 

Representantes de organizações locais passaram a ser obrigados a prestar contas de suas atividades, além de participar de um grupo de troca de mensagens para informar o PCC sobre a presença de autoridades e policiais na favela. Muitos deles também foram convocados a participar de protestos de interesse da facção.

Outro aspecto que passou a aproximar mais as ações da facção paulista ao estilo do CV carioca é a cobrança de taxa do comércio e a exploração indireta de serviços, como TV e internet. As empresas convencionais de telefonia não são, porém, impedidas de atuar na comunidade de São Paulo.

Conforme relato de moradores, esse maior controle do PCC passou a ocorrer após a notícia de que serão feitos investimentos estimados em R$ 1,6 bilhão em obras de melhorias na favela, dentro de uma operação urbana da prefeitura. Entre as intervenções está previsto o alargamento da avenida Hebe Camargo para o prolongamento da linha 17-ouro do metrô, ramal inaugurado em março e que deve chegar à comunidade –o início das obras está previsto para 2028.

Para o procurador Marcio Sergio Christino, especialista em crime organizado, um dos primeiros membros da Promotoria paulista a combater o PCC, essas medidas implementadas catapultam a facção a outro patamar.
 
“Estou espantado, porque sabia disso no Rio [de bloqueio de vias]. Mas o Rio tem umas características muito específicas. Agora, se isso espalhar por São Paulo, nossa. Eu repito, ele sobe de patamar e entra numa caracterização muito maior do que ele foi até agora. Digamos assim, é uma nova revolução no crime organizado. Aí você vai ter um estado criminoso. Quando ele deixa de fazer só o tráfico e passa a disputar o poder, muda de patamar. Ele deixa de ser uma sociedade de traficantes e se torna um estado criminoso. Uma vez que isso se instala, para você tirar é muito difícil.”

O que dizem os governos e a associação

A gestão Tarcísio de Freitas (Republicanos), por meio da Secretaria da Segurança Pública, afirmou que “forças policiais monitoram continuamente a área por meio de ações de inteligência e operações qualificadas” e destacou que, em 39 meses, apreendeu 722,1 toneladas de drogas, o que representa um prejuízo estimado de R$ 3,2 bilhões aos traficantes.
 

“Em relação a eventuais bloqueios de vias, não há registro de impedimento à atuação policial. As diligências ordinárias e operações, incluindo o cumprimento de mandados de prisão e de busca e apreensão, são realizadas regularmente na região, sem restrições”, disse o governo estadual.

A Secretaria Municipal de Segurança Urbana, da gestão Ricardo Nunes (MDB), disse que “a Guarda Civil Metropolitana realiza patrulhamento ostensivo 24 horas na região de Paraisópolis” com objetivo de “coibir irregularidades, garantir a livre circulação em vias públicas e reforçar a segurança da população”.

Claudio Fernandes, presidente da União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis, negou veementemente à Folha que a entidade tenha ligações com o PCC. “Essas informações não procedem, são inverídicas. Todos nós somos lideranças comunitárias, pessoas idôneas e profissionais que atuam na comunidade há mais de 40 anos. Nós atendemos todos os moradores”, disse.
 
Fernandes também citou ações sociais da associação em Paraisópolis, como distribuição de refeições, aulas de artes para crianças e a organização de fóruns sobre violência policial — um dos principais problemas enfrentados pelos moradores, segundo ele.

Procurado pela reportagem, o líder comunitário Gilson Rodrigues disse que desde 2018 não faz mais parte da associação de moradores e, por isso, não pode comentar o assunto relacionados à entidade. Sobre as questões de segurança envolvendo a comunidade, disse que é um tema que deve ser conduzido pelas autoridades ou pessoas responsáveis.
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