Tribunal de Israel prorroga prisão de ativistas brasileiro e palestino detidos em flotilha para Gaza

Thiago Ávila e Saif Abu Keshek ficarão presos preventivamente até, pelo menos, o próximo domingo (10), segundo advogados

Presidente Lula (PT) pediu a libertação dos dois prisioneiros em uma publicação nas redes sociais

Por Folha de S.Paulo

25/05/2026

Tribunal de Israel prorroga prisão de ativistas brasileiro e palestino detidos em flotilha para Gaza
O ativista brasileiro Thiago Ávila comparece a um tribunal em Israel - lia Yefimovich - 5.mai.26/AFP

Ashkelon (Israel) | AFP e Reuters – Um tribunal israelense estendeu até domingo (10) a detenção de dois ativistas, o espanhol-palestino Saif Abu Keshek e o brasileiro Thiago Ávila, que faziam parte de uma flotilha com destino à Faixa de Gaza.

Eles compareceram nesta terça-feira (5) a uma corte em Ashkelon, a 60 km de Tel Aviv. A advogada Hadeel Abu Salih, do grupo israelense de direitos humanos Adalah, que representa os ativistas, afirmou que a detenção foi prorrogada após a polícia solicitar mais tempo para interrogá-los.

“Vemos isso como uma tentativa de criminalizar qualquer solidariedade com o povo palestino e qualquer tentativa de romper o cerco ilegal a Gaza”, disse Abu Salih, acrescentando que a defesa planeja recorrer da decisão perante um tribunal distrital.
 
Esta é a segunda prorrogação da prisão preventiva. No último domingo (3), Ávila e Keshek já haviam se apresentado ao tribunal que, naquela ocasião, autorizou a extensão da detenção por mais dois dias.
 
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou a decisão do tribunal e pediu a libertação dos dois ativistas em uma publicação nas redes sociais. “Manter a prisão do cidadão brasileiro Thiago Ávila, integrante da flotilha ‘Global Sumud’, é uma ação injustificável do governo de Israel, causa grande preocupação e deve ser condenada por todos”, escreveu.
 
A advogada dos ativistas disse que apresentar a dupla perante um tribunal civil era uma “forma de espalhar medo e fazer os ativistas reconsiderarem sua participação” em futuras flotilhas. A Adalah, uma organização de direitos humanos e serviços jurídicos para a minoria árabe em Israel, afirmou que a prisão é ilegal e que os dois foram vítimas de maus-tratos.
 
Segundo a ONG, eles foram submetidos a “interrogatórios de até oito horas”, foram instalados em celas permanentemente iluminadas e obrigados a ir de um lugar para outro com os olhos vendados, inclusive durante visitas médicas.
 
O governo israelense negou as acusações. “Ao contrário das acusações falsas e infundadas, preparadas com antecedência, em nenhum momento Saif Abu Keshek e Thiago Ávila foram submetidos a torturas”, afirmou na véspera à agência de notícias AFP o porta-voz da chancelaria israelense, Oren Marmorstein.
 
Documentos judiciais mostram que Israel acusa os ativistas de crimes como filiação a uma organização terrorista e assistência ao terrorismo durante período de guerra. As penas podem chegar a 20 anos de prisão.

Os dois estão em greve de fome e, portanto, o tribunal ordenou que o serviço penitenciário monitore a condição médica deles.
 
A flotilha, composta por mais de 50 embarcações, partiu de França, Espanha e Itália com o objetivo de romper o bloqueio israelense a Gaza e entregar suprimentos ao território palestino devastado. As forças israelenses os interceptaram em águas internacionais, na costa da Grécia, na madrugada de quinta (30).
 
Abu Keshek e Ávila foram detidos junto de outros 175 ativistas, de múltiplas nacionalidades, que foram libertados na Grécia. Os dois, no entanto, foram levados a Israel.
 
O Ministério das Relações Exteriores de Israel acusa os dois ativistas de terem ligações com a Conferência Popular para os Palestinos no Exterior (PCPA), organização alvo de sanções do Departamento do Tesouro dos EUA. Washington acusa a PCPA de “agir clandestinamente em nome” do grupo terrorista Hamas.
 
O governo israelense afirma ainda que Abu Keshek é um membro proeminente da PCPA e que Ávila tem ligações com a organização e é “suspeito de atividades ilegais”.
 
A Espanha reiterou o pedido para “libertação imediata” de Abu Keshek e exigiu “que todos os seus direitos sejam respeitados”.
 
Antes da extensão da prisão, o Itamaraty divulgou nota conjunta com o governo espanhol condenando o que classificou de “sequestro de dois de seus cidadãos em águas internacionais por parte do governo de Israel”.
 
“Esta ação flagrantemente ilegal das autoridades de Israel, fora de sua jurisdição, é uma afronta ao direito internacional, acionável em cortes internacionais, e configura delito em nossas respectivas jurisdições”, diz a nota.
 
Os organizadores da flotilha afirmam que a interceptação israelense ocorreu a mais de mil quilômetros de Gaza. Eles a chamam de “armadilha mortal calculada no mar”.
 
Em 2025, a primeira viagem da Flotilha Global Sumud para Gaza atraiu a atenção mundial. Mas centenas de ativistas, incluindo Greta Thunberg, foram presos no mar, levados para Israel e depois deportados.
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