O antissemitismo como arma para silenciar críticos de Israel

Confundir críticas a Israel com antissemitismo não é um erro, é uma escolha dirigida à proteção de um projeto supremacista de poder

Por Sayid Marcos Tenório | Ópera Mundi

09/04/2026 13:28

O antissemitismo como arma para silenciar críticos de Israel
A deputada Tábata Amaral (PSB-SP), responsável por apresentar o Projeto de Lei 1.424/2026, que adota a definição de antissemitismo da IHRA. (Foto: Alexandre Amarante / Wikimedia Commons)

O antissemitismo voltou ao centro do debate público no Brasil nas últimas semanas, impulsionado tanto pelo precário Projeto de Lei da deputada Tabata Amaral (PSB-SP), quanto pela controvérsia envolvendo o bar antifascista Partisan, na Lapa, no Rio de Janeiro, por uma placa em que dizia que cidadãos dos EUA e de Israel não eram bem-vindos.

No entanto, esse retorno não ocorre nos marcos históricos do combate ao racismo, mas sob um viés intencionalmente distorcido que transforma o antissemitismo em instrumento de perseguição política, instrumentalizada para silenciar críticos do “Estado de Israel” e restringir o debate sobre a Palestina.

Não se trata de um desvio pontual, mas de uma estratégia estruturada. A acusação de antissemitismo vem sendo utilizada para constranger, intimidar e punir jornalistas, acadêmicos, ativistas e movimentos que denunciam práticas como apartheid, ocupação militar e genocídio.

O mecanismo é recorrente e desloca-se o debate do campo político e jurídico para o terreno moral, onde a crítica é convertida em suspeita e o denunciante, em acusado num tribunal sem direito à defesa.

O problema emerge quando esse conceito é instrumentalizado para proteger um Estado de críticas legítimas, convertendo-se em ferramenta de censura e perseguição.

O projeto apresentado por Tabata Amaral expressa essa inflexão. Ao propor a adoção da definição da IHRA (International Holocaust Remembrance Alliance),  amplamente contestada por especialistas e entidades de direitos humanos, abre-se caminho para confundir crítica ao “Estado de Israel” com preconceito contra judeus.

O efeito não é apenas conceitual, mas político. Trata-se da criação de um dispositivo que pode restringir a liberdade de expressão e criminalizar posicionamentos sob a aparência de combate ao racismo.

O caso do bar Partisan reforça esse quadro. O estabelecimento foi alvo de sanções após divulgar um cartaz informando que não atenderia cidadãos dos Estados Unidos e de Israel, em protesto legítimo contra políticas desses Estados contra palestinos.

A reação institucional buscou enquadrar o episódio como antissemitismo, ainda que se trate de uma manifestação política dirigida a Estados, não a identidades religiosas. A mensagem é clara: determinadas críticas a Israel não serão toleradas.

Essa perseguição evidencia o funcionamento de um padrão, de que a acusação não precisa ser comprovada para cumprir sua função. Basta ser lançada para produzir desgaste, isolamento e intimidação.

Esses episódios, longe de serem exceções, revelam um padrão de controle do debate público. Em vez de argumentação, produz-se acusação. Em vez de refutação, constrói-se constrangimento. O objetivo não é travar e vencer o debate, mas impedir que ele exista.

Do ponto de vista conceitual, a distorção é evidente. “Semitas” designa um conjunto de povos que inclui judeus, cristãos e muçulmanos, árabes e outros grupos do Oriente Médio. Ainda assim, no uso político contemporâneo, o termo “antissemitismo” foi reduzido a um instrumento seletivo, aplicado quase exclusivamente para blindar o “Estado de Israel” de críticas.

Essa redefinição cumpre a função precisa de impedir que o sionismo, enquanto projeto político supremacista, seja analisado criticamente. Ao confundir antissionismo com antissemitismo, constrói-se uma barreira discursiva que deslegitima qualquer crítica estrutural. No entanto, criticar um Estado ou uma ideologia política não equivale a discriminar um povo ou religião.

Essa distinção é reconhecida por numerosos judeus ao redor do mundo, inclusive israelenses, que denunciam o uso do judaísmo como justificativa para práticas de dominação. A crítica a Israel, nesse sentido, não é apenas legítima, é necessária.

Outro elemento central dessa estratégia é a instrumentalização da memória do Holocausto. A tragédia perpetrada pelo nazismo na Europa, que vitimou judeus, ciganos, pessoas com deficiência, comunistas, homossexuais e outros grupos considerados “indesejáveis” deveria servir como fundamento universal para a defesa dos direitos humanos.

No entanto, essa memória tem sido mobilizada como escudo ideológico para justificar políticas contemporâneas de opressão. Tal apropriação enfraquece a luta antirracista e banaliza um dos crimes mais graves da história.

O resultado é a construção de um ambiente em que a crítica política passa a ser tratada como suspeita. Movimentos, jornalistas, acadêmicos e ativistas tornam-se alvos, enquanto denúncias de violações de direitos humanos são deslocadas para o campo da controvérsia moral.

É necessário reafirmar, sem ambiguidade, que a crítica ao sionismo e às políticas criminosas do “Estado de Israel” são críticas políticas legítimas. Confundir essa dimensão com antissemitismo não é um erro, é uma escolha dirigida à proteção de um projeto supremacista de poder.

No fim, o que está em disputa é o direito de nomear a realidade.

E quando denunciar injustiças passa a ser tratado como crime, não estamos diante da defesa dos direitos humanos, mas da sua negação.

(*) Sayid Marcos Tenório é Historiador e Especialista em Relações Internacionais. É fundador e vice-presidente do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal). Autor do livro Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência (2. Ed. Anita Garibaldi/Ibraspal, 2022).

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